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Osas Destiny: Conheça a história do Jamaicaboy e ouça os primeiros sons do Reggae Island

(*) “A vida de um trabalhador humilde no Brasil, que consegue morar e dar comida aos seus filhos, é a realidade que todo nigeriano quer”. Foi em busca desse sonho que o músico Osas Destiny veio a Santos em 2001, aos 21 anos, em um navio cargueiro, refugiado da Guerra de Religiões, que assola o país africano desde 1953. Estima-se que mais de 10 mil pessoas tenham morrido em decorrência dos conflitos entre cristões e muçulmanos e outras milhares tenham fugido da Nigéria.

Destiny passou por apuros antes de vir para o Brasil. Em 2000, ele namorava uma garota muçulmana, mas o relacionamento nunca foi aceito pelo pai dela, capitão do exército. Após a gravidez vir à tona, o pai obrigou a menina a fazer um aborto. A namorada de Destiny não resistiu ao procedimento e faleceu no hospital.

A partir daí, o músico sabia que pagaria com a vida o trágico desfecho do relacionamento. Perseguido pelos companheiros de trabalho do sogro, Destiny fugiu para Lagos, distante 325 quilômetros de Benin City.

O que poderia representar uma nova vida para ele, não aconteceu. Em uma emboscada, Destiny foi baleado e deixado no mar de Lagos. Os homens, certos que haviam “conquistado” o objetivo, foram embora. Mas o Jamaicaboy, como é conhecido hoje, sobreviveu.

A vinda para o Brasil não foi fácil. Assim como a maior parte dos nigerianos refugiados, Destiny chegou de forma ilegal. “Peguei um navio cargueiro na Nigéria e os clandestinos ficam à mercê dos tripulantes. Durante alguns dias você fica escondido no navio sem ninguém te ver, depois você aparece e os tripulantes relatam ao capitão. Tive muita sorte pois o capitão era gente boa e logo me arrumou um trabalho dentro do navio, sendo assim pude custear a minha alimentação durante a viagem”, revela.

A música foi o instrumento para a inclusão social de Destiny no Brasil, que hoje é vocalista do Reggae Island e acaba de lançar seus primeiros três sons no site SoundCloud. “Na Nigéria já sabia que meu destino era a música, cantava na noite. Fazia algumas canções e trabalhava em serviços esporádicos”, diz o músico, que tem influências de Damian Marley, Lucky Dube, Fellar, Osayomore Joseph entre outros.

Destiny ainda lembra com tristeza dos momentos vividos em seu país de origem. “Na Nigéria a vida é bem mais difícil que no Brasil. Tem racismo entre os próprios negros, além da guerra de religiões”, diz.

O primeiro contato com a música em Santos é classificado como sorte pura por Destiny. “Um dia estava andando na praia quando vi um cara tocando violão e cantando Bob Marley. Eu não falava português, mas ele arranhava um pouco de inglês. Cantei umas músicas com ele e logo me chamou para conhecer sua casa”.

Músico Nigeriano Osas DestinyFoto: Claudio Vitor VazTxto: Lucas Russo
Fotos: Claudio Vitor Vaz

A ida ao estúdio não tardou. Destiny conheceu outros músicos nesse apartamento, como o percussionista Moisés Poulsen e um rapper. “Nós inscrevemos a banda no extinto festival Enseada Rock e pegamos o primeiro lugar em 2002, foi assim que tudo começou”, recorda ao falar do tempo que integrava o grupo Conexão Baixada.

Amizade com Chorão
Foi por meio da Conexão Baixada que o nigeriano conheceu o ex-vocalista do Charlie Brown Jr, Chorão. “Esse é um cara que sinto saudades. Era humilde ao extremo. A banda que eu tocava na época foi convidada por ele para abrirmos shows pelo Brasil”.

Chorão também convidou o Jamaicaboy para gravar a faixa Na Palma da Mão, do álbum Imunidade Musical, além de fazer ponta no filme O Magnata, produzido pelo ex-vocalista do Charlie Brown Jr.

O nigeriano guarda com carinho uma mensagem de apoio de Chorão: “Uma vez ele me disse ‘negão, tu é monstro, tu tem que correr atrás do teu sonho. Monta uma banda e faz o teu som mano, entendeu, o teu som, do jeito que você quer, do jeito que você gosta, do jeito que teu coração manda’”, diz. “Foi o Chorão que me ajudou a regularizar a situação no País. Conquistei um visto e fui beneficiado com lei de 2009”, completa.

Antes de fazer o seu próprio som, o músico passou por alguns projetos, gravou um disco solo com a produção de alguns amigos, como o DJ Junior (toca com o Latino) e teve rápidas passagens por outras bandas.

“Quando reencontrei meu amigo Maurício Garbellini, perguntei a ele se estaria interessado em tocar comigo. A resposta foi: ‘Irmão, só se for para fazer um som verdadeiro, aquilo que você realmente gosta’”.

Mesmo tocando o som que lhe agrada mais, Destiny ainda não consegue viver apenas da música. Divide o seu tempo vendendo DVDs em uma banquinha e tem o apoio da esposa, Raquel Fernandes. “Até uns dois meses atrás trabalhava numa transportadora, mas tive que fazer algumas apresentações sozinho em São Paulo, acabei faltando e fui demitido”.

Mas qual seria o “som verdadeiro”, o real desejo de Destiny? Segundo ele, a música jamaicana em geral é a grande paixão dele, seja o reggae ou o raggamuffin. “Os caras da banda vivem dizendo que eu canto rock, rap, melody e etc. Gosto de muitos estilos mas o que está no meu coração é o raggamuffin, que misturado à musicalidade da banda dá um baita molho”, encerra o músico.

Reggae Island
Os primeiros três sons da Reggae Island, Good Good, Jah Children e Jah and I Walking, podem ser ouvidos no SoundCloud. “Estamos fazendo uma pré-produção para gravação de um CD independente e vamos fazer um clipe para inscrevê-lo no Curta Santos de 2014”, adianta Osas Destiny.

(*) Reportagem publicada originalmente no jornal A Tribuna em 30/10/2013.

Jah Children

Good Good

Jah and I Walking

Comentários

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One comment

  1. Matheus

    Bacana!
    A voz dele é boa e o som é gostosinho.

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