Radar - Nuno Mindelis

O essencial para conhecer B.B. King – parte 1

NUNO MINDELIS

Ultimamente, para efeitos didáticos, embora não dê aulas nem nunca o tenha feito, tenho usado o ‘caput’ ‘Minha história’. Assim, uso ‘minha história da guitarra’ como tema central, quando me pedem para fazer Master Classes ou Workshops sobre o instrumento e a relação de quase 50 anos que tenho com ele. “A minha história do blues”, na mesma linha, quando me pedem para falar mais especificamente sobre blues, que também ouvi muito menino e assim por diante. Entendo que tentar transmitir o que se aprendeu com base em anos e anos de experiência própria é uma das melhores formas de ensinar. Até porque na prática, a teoria é outra, como diz o ditado.

Pois bem, hoje adoto a ‘Minha história de B.B.King”, como uma forma de dá-la a conhecer às centenas (milhares?) de interessados em blues de todos os cantos do Brasil que, arrebatados pela sua estranha magia, me pedem com muita frequência dicas gerais, o que ouvir etc. etc.

BB alçou aquele raro estágio em que o artista passa a ser sinônimo do próprio gênero (blues é B.B.King!), donde sempre recomendo que o ouçam, sejam os aspirantes a guitarra blues ou os que simplesmente querem mais erudição em relação a esse tipo de música, que já foi chamada de ‘música do diabo’. Nos primórdios, o blues era para alguns setores algo como a antítese do gospel que era cantado nas igrejas e chamado de ‘música de Deus.

Essa minha história começou com um compacto cujo lado A era a música Your’re Mean e, o B, So Excited, por volta de 1969, quando estava com 11 para 12 anos. O impacto foi tão forte que me lembro de todos os detalhes, da cor do disco, selo, rótulo, logotipos, tudo. Na época foi enviado por um primo canadense, então músico, mais velho. Sabedor da minha obsessão por música e permanente hábito de transformar tudo o que achava em guitarra ou violãozinho improvisado (caixas de charuto, latinhas de bom bom , raquetes de tênis etc..) aproveitou que minha mãe tinha ido lá e pôs alguns títulos na mala dela. Com um bilhetinho: ‘Nuno, este é um guitarrista promissor, anda começando a dar o que falar…ouça com atenção’.

Finalmente BB começava a ser percebido pela sociedade branca. Já tocava desde muito antes (primeiro disco em 1956) mas para rádios, clubes e plateias negras. Tanto é assim que a banda (espetacular, é preciso dizer!) nessas duas músicas (single extraído do álbum Completely Well) é branca; até pedais wah e pitadas rock foram usados nas gravações. E já vai a primeira recomendação: álbum Completely Well, de 1969! BB começava a virar pop mundial, o que foi selado com The Thrill is Gone (música de Roy Hawkins e Rick Darnell, por ele eternizada), do mesmo disco.

Apesar de anterior , o álbum Live At The Regal, de 1964, é considerado um dos maiores da história do blues, com direito à lista ‘500 melhores de todos os tempos” da prestigiada bíblia Rolling Stone Magazine. Também foi ‘tombado’ pelo Registro Nacional da Biblioteca do Congresso americano. Clapton, que não é bobo nem nada, assume o tempo todo ter bebido nessa fonte para se tornar o que é. Mark Knopfler e John Mayer também. Eis aqui, portanto, mais uma recomendação minha. Consuma sem parcimônia.

Live At Nicks/1983 seria a próxima, aprofundarei adiante, BB requer muitos artigos, impossível num só. Mas deixo uma historinha curiosa e para mim eletrizante:

Há pelo menos 30 anos faço um medley homenagem a BB King nos nos meus shows. No final de um deles, um ou dois anos atrás, no Festival de S.Teresa/ES, o baixista de Shawn Holt (filho de Magic Slim, que tocou no mesmo evento) aproximou-se e disse estar impressionado e emocionado com a semelhança do meu fraseado com o do Rei. Expliquei que ouço BB desde menino, era até imberbe, altíssima influência em idade muito vulnerável etc.etc. Papo vai papo vem, percebi que falava com Russel B. Jackson, baixista que fez Live At Nicks. Virou amigo de Facebook. (-:

Até ao próximo capítulo, pessoas bonitas!

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