Ruídos - Vinícius Sovlaki

Lee Moses: o rei de um soul obscuro


Lee Moses morreu no anonimato: em 1997, em Atlanta (sua cidade natal), sofreu o mal impiedoso do câncer no pulmão. Àquela altura do campeonato, pouquíssimos eram aqueles que tinham acesso ao seu trabalho – e, muito menos, os que realmente conheciam suas músicas. Um fim de jornada triste para um nome que poderia – e deveria – ser tão forte dentro do soul, do R&B e até do blues.

Como a vida é imprevisível, seu primeiro e único disco, Time and Place (que passou em branco para o público em 1971), hoje, se tornou peça de valor inestimável para os apreciadores do deep soul – com direito a remaster e tudo. O que era um artigo raríssimo (quase nulo) até para os mais íntimos com a soul music, hoje encontra-se fácil e em alta qualidade no catálogo escasso do Spotify para qualquer curioso.

O disco pode ser lido como uma síntese das várias nuances da soul music sessentista que ainda perduravam no início dos anos 1970. Foi produzido pelo Johnny Brantley, nome forte da época que produziu outros artistas no cenário sul do soul norte-americano – como Billy Frazier e Jimmy Norman – e que veio, com forte apelo do selo Musicor, tentar dar rumo na carreira até então improlífera de Moses.

Um retrato da vasta gama que o disco abrange são as interpretações peculiaríssimas de Hey Joe, do Jimi Hendrix, e de California Dreaming, do The Mamas and The Papas. O espírito de Hendrix, inclusive, pode ser encontrado também tanto nos arranjos (as guitarras de Moses apresentam grave influência do líder do Experience) quanto nas letras (algumas citações ao ídolo podem ser encontradas em algumas faixas). Eram amigos durante a década de 1960 e tocaram juntos em diversos momentos.

Um aspecto curioso do disco (e da carreira) de Moses é que sua voz não é nem de longe a mais virtuosa no mundo dos artistas do gênero. A rouquidão e a constante desafinação o colocariam num patamar de péssimo vocalista/interprete no mundo fonográfico da época. Felizmente, estamos no século XXI, e ultrapassamos essa ideia de que extensão vocal é inerência necessária à qualidade sonora.

Nesse caso, a força e solidez com que Moses vomita suas dores na grande maioria das faixas – que variam entre declarações de amor e grandes fossas – são o sustento que sua voz precisa pra se garantir. O berro desafinado, por vezes julgado, é um dos pilares que seguram a alma dele naquele conjunto de canções – e, na maioria das vezes, isso é catastroficamente belo.

Outro ponto importante é a guitarra de Moses, sempre íntegra e pontual – por vezes, lisérgica, como nos momentos apice de Adorable One, a ultima do trabalho. Dan Auerbach, do The Black Keys, o cita constantemente como uma de suas influências na guitarra. Os arranjos têm dedo dos Ohio Players, que unidos da força guitarristica de Moses (vale muito destacar) formam no contexto soul um inesquecível conjunto, que por ironias do destino não foi mais explorado.

Eu conseguiria destacar qualquer faixa aqui, mas vou de Free At Last e Time And Place, dois gritos de um amor desesperado, donos de uma prosa romântica, porém catártica e derradeira. 

Um excelente final de semana a todos!!!

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